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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

“NÃO ALÉM DO QUE ESTÁ ESCRITO” (1 COR 4,6): SOLA SCRIPTURA?




 “NÃO ALÉM DO QUE ESTÁ ESCRITO”
(1 COR 4,6)
SOLA SCRIPTURA?

A expressão contida em 1 Cor 4,6, em sua tradução mais comum para a língua portuguesa (“não ir além do que está escrito”), tem servido a alegações da proclamação bíblica Sola Scriptura, princípio fundamental do Protestantismo. Entretanto, o texto original seria traduzido literalmente como “o não acima do que escrito”, cuja ausência de verbos e outros complementos somente permite uma tradução mediante a especulação do seu real significado, a qual, para ser legítima, deve respeitar o respectivo contexto. A principal teoria é que se trata de um ditado comum na época, e mesmo exegetas protestantes que veem em “o que está escrito” uma referência à totalidade do Antigo Testamento têm reconhecido que esta teria o fim limitado pelo contexto, sendo uma lembrança da condição pecaminosa e limitada do homem. Pertinente ainda é a tese de que essa expressão, aparentemente sem sentido no contexto, seria uma glosa de copista que passou a ser inserida no texto. Em todo caso, a negação da tradição oral e da autoridade da Igreja, sendo a negação da própria pregação do apóstolo, e sendo contrária ao ensinado por São Paulo em outros textos, não pode abrigar-se aqui. E desse modo, não indo além do que está escrito, descabe a extrapolação que vê nesse trecho “Sola Scriptura!”.

A Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios repreende os habitantes de Corinto por estarem se dividindo em partidos em razão do orgulho por terem tido tal ou qual mestre (um diz eu sou de Paulo, outro eu sou de Apolo, outro eu sou de Kefas, 1 Cor 1,12). Encontra-se, no versículo 6 do capítulo 4 a expressão “aprendam de mim a não ir além do que está escrito”, que tem sido muito usada na tentativa de validar o Sola Scriptura (somente a Bíblia), princípio fundamental do Protestantismo.

O versículo, na versão Almeida Corrigida Fiel, tem a seguinte redação: “E eu, irmãos, apliquei estas coisas, por semelhança, a mim e a Apolo, por amor de vós; para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito, não vos ensoberbecendo a favor de um contra outro” (sem destaque no original).

Na Nova Tradução na Linguagem de Hoje já encontramos: “aprendam o que quer dizer o ditado: ‘Obedeça ao que está escrito’”. Já na famosa King James Version, traduzindo literalmente, temos: “que aprendais em nós a não pensar dos homens acima do que está escrito”. A Tradução Ecumênica da Bíblia já tem a redação “... a nosso exemplo, aprendais a não vos inchar de orgulho, tomando o partido de um contra o outro”. A versão portuguesa “O Livro” já traz: “... tenho vindo a dizer: o que vocês pensam deve ser submetido ao que dizem as Escrituras”. A chamada Versão Fácil de Ler já escreve: “... aprendam isto: ‘Sigam somente o que as Escrituras dizem’”. Na Nova Bíblia Viva encontramos: “... lhes digo: que vocês não devem ter preferências pessoais”. E traduzindo literalmente a famosa Amplified Bible temos: “vocês aprendam [a pensar dos homens de acordo com a Escritura e] não ir além do que está escrito”.

Pode-se dizer que a parte antecedente (“E eu, irmãos, apliquei estas coisas, por semelhança, a mim e a Apolo, por amor de vós; para que em nós aprendais...”) e a consequente (“... não vos ensoberbecendo a favor de um contra outro”), guardadas as respectivas adaptações de concordância, mantêm-se constantes.

Entretanto, especificamente o trecho que diz “não ir além do que está escrito” aparece com grandes variações: desde o mais comum “não ir além” ou “não ultrapassar” o que está escrito, passando por “não pensar do homem acima” do que está escrito, pela afirmação de que se trata de um ditado que diz “obedeça ao que está escrito”, chegando a “o que vocês pensam deve ser submetido às Escrituras”, “sigam somente as Escrituras”, “vocês não devem ter preferências pessoais” ou “não devem se inchar de orgulho”.

Porque esse trecho tem tantas traduções tão variadas, umas dizendo não vá além do que está escrito, outras não pensar dos homens mais do que o que está escrito, outras simplesmente absorvendo essa pequena expressão na mensagem geral do versículo dizendo não se encham de orgulho, enquanto outras ainda dizendo andem conforme as Escrituras?

A resposta é que o texto grego antigo em que essas traduções são baseadas não possui verbo. Na verdade é um texto cuja tradução e compreensão tem desafiado estudiosos há séculos.

O texto grego, transliterado, é “tó mé hiper rá gegráptai”, que literalmente é “o não acima do que escrito”, ou “o não acima do que está escrito”, ou ainda “o não além do que está escrito”.

Ocorre que ao ser traduzido, para que esse texto tenha sentido, é preciso especular. Há um verbo implícito? Mas qual? Ir, pensar, considerar? Mas o que? Sobre o que? “O escrito” são as Escrituras? Mas por que não é citado nenhum trecho como nos outros locais da mesma carta onde aparece a expressão “está escrito”? Essa frase tão estranha seria um ditado conhecido na época? Mas o que significava?

Diferentes suposições (e são sempre e apenas suposições), levam a traduções e interpretações completamente diferentes.

Como, então, entender esse trecho? Parece que a razão está com Gordon D. Fee: “Seja o que for que signifique, o objetivo de tudo que precede, como o resto do argumento demonstra, é a proposição da cláusula final: que ‘vocês não se orgulhem de um contra o outro’” (The New International Commentary on the New Testament: The First Epistle t0 the Corinthians, Eerdmans, 1987, p. 166, original em inglês).

Portanto, seja um apelo aos princípios do Antigo Testamento, como a condição pecaminosa do homem, seja um ditado que tenha um significado como o conhecido “não procure pelo em ovo”, ou “chifre em cabeça de cavalo”, “não complique as coisas”, seja uma remissão ao que Paulo já escrevera nesta ou noutra carta, etc., seja o que for, esse trecho de apenas cinco palavras (“tó mé hiper rá gegráptai”) deve ser interpretado no contexto, e não numa extrapolação de sentido que contraria os objetivos do versículo e da Carta como um todo, para atender aos objetivos do intérprete.

Com essa visão parecem concordar a maioria, senão todos os exegetas protestantes de renome, como vemos a seguir.

No Comentário Bíblico NVI, editado por F. F. Bruce (Editora Vida, 2008), temos: “... Não ultrapassem o que está escrito. Para eles, é a necessidade de aprender o lugar subordinado do homem e da posição exaltada de Deus; a sabedoria humana sendo substituída pela de Deus, os líderes humanos, substituídos por Cristo. Essa é a cura para as facções – o orgulho inchado que iria ‘favorecer um e desprezar o outro’ (NEB) – e para o orgulho presunçoso deles, que confundia os dons de Deus com as suas próprias realizações” (Paul W. Marsh, 1 Coríntios, p. 1881).

Já Leon Morris escreve na reconhecida Série Cultura Bíblica (Editora Vida Nova): “Podemos muito bem conjeturar que não ultrapasseis o que está escrito(‘não além do que está escrito’) era um lema familiar a Paulo e a seus leitores, dirigindo a atenção para a necessidade de conformidade com a Escritura. Portanto, ele está dizendo que, considerando o que ele teve que dizer acerca de Apolo e de si próprio, eles aprenderão a ideia escriturística da subordinação do homem. Uniformemente a Bíblia exalta a Deus. A ênfase dada pelos coríntios às pessoas dos mestres significava que eles estavam tendo os homens em demasiado alta consideração” (I Coríntios: introdução e comentário, 1986, p. 62).

Hernandes Dias Lopes, no Comentário Hagnos: “Os coríntios julgaram Paulo, Apolo e Pedro por suas preferências e preconceitos. Entretanto, Paulo diz que não devemos julgar uns aos outros por esses critérios. (...) O que significa ultrapassar o que está escrito? Se você tem de examinar alguém, limite-se ao ensino das Escrituras. A única base de avaliação é a Palavra de Deus e não nossas opiniões. Não superestime os ministros além da medida das Escrituras” (I Coríntios: como resolver conflitos na igreja, 2008, pp. 76-77).

Simon J. Kistemaker, no Comentário do Novo Testamento (Editora Cultura Cristã), afirma que “A maioria dos estudiosos acredita que essas palavras ‘são evidentemente um provérbio, ou um princípio, em fórmula proverbial’. Pode ter sido um ditado corrente na arena política da época de Paulo e que servia para a promoção da unidade. Paulo, dizem esses especialistas, faz uso de uma máxima familiar nos círculos de Corinto para apelar para o fim das divisões na igreja e para promover a unidade” (2003, pp. 194-195).

Thomas Reginald Hoover, no Comentário Bíblico: 1 e 2 Coríntios (CPAD): “Não devemos ir além ‘daquilo que está escrito’, gloriando-nos em determinados pregadores ou mestres. Devemos ‘gloriar- nos no Senhor’ (Jr 9.23,24). Uma razão disso é que não sabem os motivos das outras pessoas. Escondemos os nossos motivos dos nossos semelhantes e, às vezes, nem percebemos a nossa própria motivação. Mas Deus tudo vê, e julgará até os motivos das nossas ações” (1999, p. 38).

Mesmo João Calvino, que sistematizou a doutrina protestante, entendeu apenas que “A frase ‘acima do que está escrito’, pode ser explicada de duas maneiras, ou seja: como uma referência ao que Paulo escreveu, ou às provas bíblicas a que fez referência. Visto, porém, que isso não é muito importante, os leitores estão livres para escolherem o que preferirem” (I Coríntios, Edições Parakletos, 2003, p. 135).

Poderíamos multiplicar as citações... Certo é que, no contexto, a expressão “o não acima do que está escrito”, não pode ser vista senão como algo que tenha um sentido compatível com “estou lhes ensinando a não se orgulharem em favor de um e contra outros, criando facções como se Cristo estivesse dividido”.

Donde razão assiste a traduções como da TEB e da Nova Bíblia Viva, que, ao invés de transferirem ao leitor comum da Bíblia o problema de entender o que essa enigmática expressão do texto original significa, apresenta o significado integral do versículo.

Lado outro, repreensível a tradução tendenciosa, como da Versão Fácil de Ler (VFL) elaborada pela Bible League International, que força o texto no sentido que mais favorece sua posição doutrinária, assumindo pressuposições que nem os exegetas protestantes (pelo menos a grande maioria) reconhece como legítimas.

Não podemos concluir esse estudo, enfim, sem mencionar algo de suma relevância sobre essa expressão (“o não acima do que está escrito). Desde o trabalho do teólogo protestante holandês Johannes Marinus Simon Baljon (De Tekst der Brieven van Paulus aan de Romeinen, de Corinthiërs en de Galatiërs als voorwerp van de conjecturaalkritiek beschouwd, Utrecht 1884, pp. 49–51) é grandemente apoiada a tese de que esse trecho é uma glosa, isto é, um acréscimo feito por um copista, que passou para as futuras cópias.

Assim, “o não acima do que [está] escrito” seria uma anotação de que o termo “não” (de “não vos ensoberbecendo”) estava inserido acima do texto corrente no original, algo que ocorre em textos escritos à mão. Nas cópias posteriores o que era apenas uma anotação marginal (glosa) foi sendo copiado no texto e lido como sua parte integrante. Para a chamada crítica textual, ciência que tem buscado chegar o mais próximo possível do texto primitivo da Bíblia mediante o estudo comparativo de manuscritos e a identificação de possíveis inserções e erros ocorridos ao longo de quase 1500 anos de cópias à mão, isso não é algo de se estranhar. É bom lembrar aqui que a Bíblia não caiu do céu impressa, encadernada, com zíper, índice, com todos os livros juntos e divididos em capítulos e versículos.

A nota de estudos na TEB, com efeito, registra: “O texto traz: o não acima do que está escrito. É difícil dar um sentido aceitável a esse texto. Uma hipótese engenhosa, adotada aqui, supõe tratar-se da nota marginal de um copista relativa a uma particularidade gráfica (o ‘não’ está escrito acima do ‘a’) e que um copista pouco inteligente transladou para o texto. Outros pensam num provérbio...” A Bíblia de Jerusalém anota semelhante observação.

E no prestiagiado Comentário Bíblico São Jerônimo encontramos: “‘não ir além do que está escrito’: J. Strugnell demonstrou (CBQ36 [1974] 555-58) que to mé hyper ha gegraptai é o comentário marginal de um copista em cujo exemplar faltava um mé, ‘não’, que ele introduziu antes de heis” (Jerome Murphy-O ’Cornnor, O. P., Primeira Carta aos Coríntios, p. 462, em Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Novo Testamento e artigos sistemáticos, Academia Cristã, Paulus, 2011).

Erro de copista ou não, contudo, “não ir além do que está escrito”, não é uma proclamação do Sola Scriptura, e, de fato, não vem sendo apresentado como tal por estudiosos e tradutores da Bíblia dignos de nota. Essa é uma expressão que apenas quando traduzida com o acréscimo de certas palavras, e posta fora do contexto em que se encontra na Bíblia, parece proclamar o Sola Scriptura. A expressão pode ser uma referência a um ditado ou lema da época, ou, caso se refira à Bíblia, à condição pecaminosa do ser humano, mas em ambos os casos, como reforço à reprimenda ao orgulho dos coríntios, que é o real objeto do texto bíblico.

Ademais, tenha-se em conta que se São Paulo estivesse proclamando o Sola Scriptura, estaria ele negando seu próprio ensinamento oral, que ele manda guardar e transmitir de modo igualmente oral, assim como seu ensinamento sobre a autoridade, especialmente da Igreja.

Com efeito, Paulo não diria para rejeitar a Tradição, quando ensinou em 2 Tm 2,2 “E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros”, em 2 Tm 3,14 “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido”, e em 2 Ts 2,15 “Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa”, entre outros trechos que enfatizam o valor dos ensinamentos do Apóstolo dados oralmente, assim como da transmissão oral desse ensinamento.

São Paulo, também não poderia estar negando a Autoridade da Igreja, quando proclama a origem divina da autoridade: “Toda a alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus. Por isso quem resiste à potestade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos a condenação” (Romanos 13,1-2); e a legitimidade desta para julgar: “Ousa algum de vós, tendo algum negócio contra outro, ir a juízo perante os injustos, e não perante os santos? (…) Não há, pois, entre vós sábios, nem mesmo um, que possa julgar entre seus irmãos?” (1 Coríntios 6,1-5). E se um gesto vale mais que mil palavras, então Atos 15, que narra o Concílio de Jerusalém provocado por Paulo em razão da divergência com os que impunham a circuncisão aos pagãos convertidos, é a maior confissão de fé que ele poderia fazer da Autoridade da Igreja, pois havendo divergência sobre a doutrina, não decidiu sozinho, mas levou a questão à Igreja.

Para São Paulo, o Espírito Santo é que constituiu os bispos para que apascentem a igreja de Deus, a qual Ele resgatou com seu próprio sangue (Atos 20,28), a Igreja é o corpo mesmo de Cristo, pois afirma que “Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo (...) Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de Cristo e da igreja” (Efésios 5,23-32), e corpo é algo visível, palpável, concreto, organizado, e capaz de agir. Ele também ensina que a Igreja é a casa de Deus (ou seja, a família de Deus, como normalmente o termo casa é empregado na Bíblia), ela é “a coluna e firmeza da verdade” (1 Timóteo 3,15); e que a Igreja vem de um desígnio eterno, e dela procede a revelação de Deus a partir do Cristo (Efésios 3,9-11).

Em resumo Paulo não proclamaria Sola Scriptura, sorrateiramente, num texto que não tem qualquer correlação com esse tema, para negar, sem mais, seus próprios ensinamentos dados oralmente, e não poucos ensinamentos postos por escrito sobre a Tradição, a constituição, a natureza e a Autoridade da Igreja.

Assim, para não ir além do que está escrito em 1 Cor. 4, 6, não se deve fazer a extrapolação de que “o não acima do que escrito”, no meio de uma reprimenda do orgulho e partidarismo dos coríntios, esteja, na verdade, significando “Sola Scriptura!: somente deve ser crido o que se encontra escrito na Bíblia, rejeitem tudo que eu não tenha ensinado por escrito, a Tradição, transmitida por palavras e gestos, e a Autoridade da Igreja! Cada qual leia as Escrituras e faça sua própria interpretação, e julgue por si mesmo, pois nem o ensinamento nem a decisão de quem quer que seja, um bispo, um Concílio, Kefas, vale coisa alguma, somente a Escritura. Quanto aos que discordarem do seu entendimento da Escritura, como você é livre para interpretá-la, separe-se deles e crie sua própria igreja”. Essa é evidentemente a mensagem oposta à da 1ª Carta aos Coríntios.


Concluamos que sendo o Sola Scriptura algo que não se pode deduzir de “o não acima do que está escrito” no devido contexto, e sendo incompatível com a teologia paulina, não há qualquer possibilidade de que 1 Coríntios 4,6 o ensine. 

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

A LÓGICA CONTRA O SOLA SCRIPTURA


Para a Igreja Católica Romana, Escritura, Tradição e Magistério são aspectos indissociáveis da transmissão da revelação divina, sem um dos quais esta se deforma. Conforme ensina a Constituição Dogmática Dei Verbum (Concílio Vaticano II): “a sagrada Tradição, a sagrada Escritura e o magistério da Igreja, segundo o sapientíssimo desígnio de Deus, de tal maneira se unem e se associam que um sem os outros não se mantém, e todos juntos, cada um a seu modo, sob a ação do mesmo Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas”.

Em oposição a essa doutrina, o Protestantismo propõe Sola Scriptura, expressão em latim que significa somente a Bíblia: “A Bíblia, toda a Bíblia, e nada mais que a Bíblia é a religião dos protestantes” (Charles Haddon Spurgeon, “The Eternal Name”).

Este é o princípio formal da “Reforma Protestante” pois “se posiciona no início de tudo e assim direciona e forma tudo que os cristãos afirmam” (James Montgomery Boice, “Reforma hoje”, Cultura Cristã, 1999, p. 7). “Sola scriptura é um dos princípios fundamentais da Reforma Protestante. Alguém poderia até dizer que outras grandes doutrinas da Reforma (tais como sola gratia e sola fide) são logicamente dependentes do sola scriptura” (Brian M. Schwertley, “Sola Scriptura e o princípio regulador do culto”, Os Puritanos, 2001, p. 11).

Essa dependência do Protestantismo para com o Sola Scriptura é tal que John F. MacArthur Jr. admite que “Evidentemente, se Roma pode provar sua posição contra sola Scriptura, ela aniquila todos os argumentos da Reforma com um golpe fatal” (“A suficiência da palavra escrita”, em “Sola Scriptura numa época sem fundamentos, o resgate do alicerce bíblico”, Cultura Cristã, 2000, pp. 135-136).

Entretanto, conforme se verá, esse princípio não se sustenta.

O Cânon Bíblico não é bíblico

Conforme declaram os protestantes “Todo o conselho de Deus, concernente a todas as coisas necessárias para a sua própria glória, para a salvação do homem, a fé e a vida, está expressamente declarado ou necessariamente contido na Sagrada Escritura”; e “as coisas que precisam ser conhecidas, cridas e obedecidas para a salvação estão claramente propostas e explicadas em uma passagem ou outra; e, pelo devido uso de meios comuns, não apenas os eruditos, mas também os indoutos, podem obter uma compreensão suficiente de tais coisas” (Confissão de Fé Batista de Londres de 1689).

Nesses exatos termos, resta evidente que, necessariamente, por coerência, o próprio princípio-doutrina Sola Scriptura deve ser encontrado na Bíblia, especialmente no Novo Testamento. Se ele não for encontrado na Bíblia ele se destrói, pois se mostra algo proposto para ser crido que não pode ser provado biblicamente.

É exatamente esse o problema, o Sola Scriptura não se encontra na Bíblia e com ela é incompatível, e isso pode ser demostrado logicamente.

Bíblia é uma palavra grega que significa literalmente “livros”. A Bíblia tem esse nome exatamente por ser um conjunto de livros, textos que foram escritos e circulavam independentemente uns dos outros, até que foram reunidos em um conjunto fixo e determinado que passou a ser conhecido com esse nome.

O fato é que nenhum livro da Bíblia afirma quais são os livros bíblicos. Em outros termos, a Bíblia não tem um índice que seja ele mesmo bíblico. Esse conjunto foi determinado pela Igreja a partir da Tradição, no século IV, como resultado de concílios regionais e com a tradução da Bíblia para o latim (a Vulgata).

Ora, somente conhecido o conjunto é possível determinar os elementos que lhe são excluídos. Assim, é impossível que qualquer texto bíblico, escrito como um livro independente, cujo conjunto futuramente seria determinado e o incluiria, dissesse quais são os livros do conjunto e consequentemente quais são os ensinamentos daquele conjunto, e que outros livros e ensinamentos estariam excluídos. Em outras palavras, é impossível que quaquer dos textos bíblicos determinasse que somente o que neles se contêm fosse considerado como regra de fé e moral, pois se não é conhecido o conjunto, não é possível determinar o que dele está excluído.

Impossibilidade de prova da negação

A afirmação do Sola Scriptura, de que somente o que se encontra na Escritura é a verdade revelada, é necessariamente a negação de que exista verdade revelada em qualquer outro lugar, tal como na Tradição.

Ocorre que, por uma questão de lógica, é impossível fazer prova negativa, isto é, provar uma negação. Por exemplo, por mais que seja pouquíssimo comum, é impossível alguém provar que nunca foi à Lua. É possível provar que uma pessoa não estava na Lua ontem, pela comprovação de um fato que implique estar ela na Terra, mas não é possível provar que ela nunca esteve lá.

Com efeito, tudo que se pode provar são fatos, não negações. Eventualmente um fato provado implica a impossibilidade de outro fato, mas isso somente ocorre se o fato provado for incompatível com o outro que foi negado. É o caso do álibe: como uma pessoa não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, se alguém prova estar num lugar diferente no momento de um crime, não pode tê-lo cometido.

Então, para que se prove que não há ensinameto de Nosso Senhor Jesus Cristo, portanto verdade revelada, e ensinamento apostólico, fora da Bíblia, seria necessário provar um fato incompatível com a existência de verdade revelada fora da Bíblia. Mas quais fatos teriam essa implicação? Talvez que Nosso Senhor tivesse se revelado somente por escrito, que ninguém O viu nem O ouviu, mas que dEle apenas recebeu um livro (e algumas religiões e seitas realmente alegam ter revelações assim); ou que os apóstolos somente pregaram por escrito; ou que não foram constituídos bispos e sucessores na pregação apostólica. Ora, como tais afirmações são sabidamente falsas e negadas pela própria Escritura, não é possível tal prova.

Isso torna, logicamente insustentável a fundamentação do Sola Scriptura, que figura então como pressuposto admitido pelo Protestantismo sem fundamentação na Escritura, algo que o próprio Sola Scriptura condena, pois exige que tudo se prove pela Escritura. A contradição é evidente.

Petitio principii

Santo Agostinho de Hipona escreveu: “Eu não creria no Evangelho, se a isso não me levasse a autoridade da Igreja católica” (Contra a epístola fundamental dos Maniqueus, cap. 5, par. 6). Obviamente isso é incompatível com o Sola Scriptura, pois se a Bíblia precisa do testemunho da Igreja para ser crida, então não é possível negar a Autoridade da Igreja. Por isso o Protestantismo propõe a Autoautencidade da Bíblia, na intenção de dizer que o testemunho da Igreja é dispensável, a Bíblia se sustenta sozinha e deve ser ser crida por si mesma.

Autoautencidade da Bíblia significa dizer que a Bíblia é Palavra de Deus porque diz que é. Conforme autores protestantes: “... não pode ser racionalmente negado que a Bíblia reivindica ser a Palavra de Deus inerrante e infalíveI (2Tm 3.16,17; 2Pe 1.20,21). E isso é significativo. É uma reivindicação que poucos escritos fazem. Portanto, visto que a Bíblia faz tal reivindicação, explícita e predominantemente, é razoável crer no testemunho da própria Bíblia”; e sobre a necessidade da autoautenticidade para o Sola Scriptura: “Se alguém pudesse provar que a Bíblia é a Palavra de Deus, a Bíblia não seria o ponto de partida. Haveria algo antes do ponto de partida, o qual seria então o verdadeiro ponto de partida. Simplesmente declaro, de acordo com a Escritura, que não há maior autoridade do que a Palavra autoautenticadora de Deus” (Richard Bacon e W. Gary Crampton, “Em Direção a uma Cosmovisão Cristã”, Monergismo, 2009, pp. 47-48).

Assim, documentos e autores protestantes afirmam solenemente a Autoautenticidade da Bíblia e a dispensa da Igreja. Conforme a Confissão de Fé de Westminster (seguida pela Confissão de Fé Batista de Londres de 1689): “A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende somente de Deus (a mesma verdade) que é o seu autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a palavra de Deus”. Já Schwertley escreveu: “A igreja (sejam ou não papas, cardeais, bispos, pais da igreja, concílios eclesiásticos, sínodos ou congregações) não tem autoridade sobre a Bíblia, mas a Escritura auto-autenticada tem autoridade absoluta sobre a igreja e sobre todos os homens. Por ser o que a Bíblia é (como já visto), o mister da igreja é puramente ministerial e proclamador.” (“Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto”, Cultura Cristã, 1999, p. 13).

O problema é que vários outros textos reclamam sim serem palavra de Deus. Basta lembrar do Alcorão, ou do Livro de Mórmon. Dizem os mórmons que “O Livro de Mórmon é a palavra de Deus, assim como a Bíblia”, e dele extraímos, por exemplo, o seguinte “E se acreditardes em Cristo, acreditareis nestas palavras, porque são as palavras de Cristo (…)” (2 Néfi 33,10). E quantos evangelhos apócrifos, que não entraram na composição da Bíblia existem? Há dezenas deles. Sem falar dos “atos”, “apocalipses”, e apócrifos do Antigo Testamento.

A autoautenticidade da Bíblia, e por consequencia o Sola Scriptura, simplesmente não têm uma resposta para o porque desses textos não serem considerados críveis. E isso ocorre porque a autoautenticidade é uma petição de princípio (petitio principii), ou falácia de circularidade, um argumento que pressupõe como verdade algo que se quer provar. Crê-se que a Bíblia é Palavra de Deus, e, assim, é verdadeira, e, então, por ela dizer ser Palavra de Deus, crê-se que ela é Palavra de Deus e verdadeira. Ora, se alguém não crê que a Bíblia é Palavra de Deus, e não necessariamente verdadeira, a alegação bíblica de ter essa qualidade de nada vale para chegar a essa convicção. E, se alguém aplicar tal raciocínio circular ao Alcorão, ao Livro de Mórmon, aos Evangelhos Apócrifos, ou a qualquer outro texto sagrado, concluirá necessariamente serem estes Palavra de Deus.

Registro que para tentar escapar dessa circularidade Calvino apelou para a iluminação pessoal do Espírito Santo: “Portanto, que se tome isto por estabelecido: aqueles a quem o Espírito Santo interiormente ensinou aquiescem firmemente à Escritura, e esta é indubitavelmente autopiston [autopiston – autenticada por si mesma]; nem é justo que ela se sujeite a demonstração e arrazoados, porquanto a certeza que ela merece de nossa parte a obtemos do testemunho do Espírito. Pois, ainda que, de sua própria majestade, evoque espontaneamente reverência para si, todavia por fim nos afeta seriamente, visto que nos foi selada no coração através do Espírito. Portanto, iluminados por seu poder, já não cremos que a Escritura procede de Deus por nosso próprio juízo, ou pelo juízo de outros; ao contrário, com a máxima certeza, não menos se contemplássemos nela a majestade do próprio Deus, concluímos, acima do juízo humano, que ela nos emanou diretamente da boca de Deus, através do ministério humano” (João Calvino, “As Institutas”, vol. 1, Cultura Cristã, 2003, pp. 85-86).

É óbvio que tal emenda leva a um total subjetivismo, que igualmente permite a outras pessoas dizerem ser outros livros igualmente Palavra de Deus alegando, e acreditando, que estão sendo iluminadas...

Na verdade Calvino percebeu o problema e estabeleceu que se deve julgar o Espírito pela Escritura: “E então? Uma vez que Satanás se transfigura em anjo de luz [2Co 11.14], que autoridade terá o Espírito entre nós, a não ser que seja discernido através de sinal de absoluta certeza? (...) Alegam, com efeito, que é afrontoso que o Espírito de Deus, a quem todas as coisas devem estar sujeitas, seja subordinado à Escritura. (...) Com efeito, confesso que, desta forma, o Espírito é submetido a um exame, contudo um exame através do qual ele quis que sua majestade fosse estabelecida entre nós. (...) Entretanto, para que o espírito de Satanás não se insinue sob o nome do Espírito, ele quer ser por nós reconhecido em sua imagem que imprimiu nas Escrituras. Ele é o autor das Escrituras: não pode padecer variação e inconsistência para consigo mesmo. Portanto, como ali uma vez se manifestou, assim tem ele de permanecer para sempre” (Idem, pp. 100-101).

Em outras Palavras, segundo Calvino, o Espírito Santo, num testemunho interno, é que deve fazer o fiel crer nas Escrituras, cuja inspiração é atestada se estiver conforme as Escrituras, pois, caso, contrário, essa inspiração vem do Maligno. Isso é apenas uma maneira sofisticada de dizer absolutamente a mesma coisa que o que foi comentado acima: crer que a Bíblia é Palavra de Deus, e, em razão do que está nela escrito (que ela é Palavra de Deus), crer nisso.


Portanto, irremediavelmente, dependente como é da Autoautenticação da Bíblia, o Sola Scriptura encontra-se fundado numa terrível falácia de circularidade.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Breve ensaio sobre a Tradição Apostólica e a Igreja Católica



Certa vez fui passar a Páscoa com uma família de amigos. Resolvi então comprar um enorme ovo de páscoa, pois era uma família grande, e a matriarca da família, uma senhora idosa, avó dos meus amigos, poderia repartir o ovo com todos. Isso é o que a minha mãe fazia todos os anos: repartia os ovos de páscoa e os bombons entre todos os filhos, netos, etc. que estivessem na nossa casa para o almoço de Páscoa. Chegou o dia, e eu entreguei aquele enorme ovo de chocolate àquela senhora. E ela agradeceu, levantou-se, e guardou o ovo… Foi então que eu tive consciência de que a minha família tinha uma tradição, que é nossa, não é o costume de todos.

Hoje eu entendo que tradição é algo que se recebe, que se segue, que se tem, mas muitas vezes não se tem consciência de que se tem, qual seu significado e importância, até que surja uma situação em que essa tradição é posta em relevo ao confrontar-se com uma situação de negação.

Do mesmo modo é a Tradição Apostólica, o ensinamento recebido dos apóstolos em palavras, atos, ritos, atitudes, transmitido de geração em geração pelos cristãos de todos os tempos e lugares, que também lhe dão expressões próprias e variadas (as tradições, com “t” minúsculo e no plural). Nós tomamos consciência de aspectos dessa Tradição especialmente quando ela é questionada, negada, posta em dúvida ou criticada. Donde os concílios ecumênicos, as declarações de dogmas, e porque essas muitas vezes ocorrem séculos e séculos depois que os apóstolos já morreram.

Com efeito, a Tradição é como um rio que move as pás de um moinho onde se tritura o milho. Em cada saco de fubá está a energia do rio, mas o rio mesmo só é visto se procurado, pois passa debaixo do moinho de onde veio o fubá. Do mesmo modo, a Tradição é algo subjacente a tudo da fé cristã, da vida da Igreja, ela está nos ensinamentos, nos ritos, costumes, devoções, etc. Tudo que o legítimo povo de Deus crê e faz contém algo da Tradição. Noutras palavras, como o rio para o fubá, nas tradições está a Tradição Apostólica, a Grande Tradição, que movimenta a Igreja e faz nascer seus frutos de amor e piedade. Estes frutos não são a Tradição, mas surgem dela, dela recebem sua força propulsora que lhes dá vida e sustentação. E tal como o rio, a Tradição pode ser encontrada por quem a procure, basta seguir a fonte de seus frutos.

Nessa linha, nunca se pode dizer que os ensinamentos da Igreja Católica, os dogmas cristãos, são esses que já foram declarados e somente esses. Nós não sabemos que questões a Igreja ainda enfrentará, e que verdades, embora antigas, precisarão ser declaradas dogmaticamente a fim de afastar o erro.

Fato é que Nosso Senhor Jesus Cristo apenas pregou oralmente e deu a seus Apóstolos a ordem de pregar, não de escrever. Por isso, tão logo ele subiu aos céus, os apóstolos acorreram a todos os cantos do mundo pregando. Quantas viagens Paulo não fez? Então a Tradição precede a Escritura, isso é verdadeiro tanto para o Antigo quanto para o Novo Testamento (sendo particularmente evidente para o Novo Testamento, que documenta as viagens de Paulo).

E como qualquer escrito, o Novo Testamento não contém toda a Tradição. Tal como uma pessoa que escreve sua autobiografia obviamente não consegue contar todos os detalhes da sua vida, mas se fixa em alguns pontos que naquele momento (em que está escrevendo) acredita serem os mais relevantes, a Escritura não tem todos os detalhes. É impossível assegurar que tudo, toda a pregação dos Apóstolos, e tudo que é relevante da Revelação para todos os tempos, esteja escrito no Novo Testamento. Exatamente o contrário é muito mais plausível.

Mesmo o fechamento do cânon bíblico, a rigor, é um corte um tanto artificial, feito para fins práticos, que atesta que aqueles escritos são inspirados, sendo de apóstolos ou discípulos imediatos dos apóstolos. Mas isso não significa que não haja algo além daqueles escritos que mereça fé, ou que a inspiração do Espírito Santo cessou, pois Ele sopra onde quer e quando quer. De fato, com o fechamento do cânon, não encontramos na Bíblia vários textos importantes para os cristãos, como a Carta de Clemente aos Coríntios, a Didaquê, o Pastor de Hermas, as Cartas de Inácio de Antioquia, etc. São textos que ensinam sem erro importantíssimas lições das primeiras eras do Cristianismo. Mas era preciso fechar as Escrituras para os cristãos em algum ponto, e isso foi feito. Entretanto, supor nisso uma ruptura na doutrina cristã, como se naquele momento acabasse a inspiração do Espírito Santo, e não corresse viva a Tradição vinda dos Apóstolos, é totalmente artificial e contrário à realidade.

Graças a Deus, além dessa Tradição se manter viva na Igreja Católica, muito dela está documentada, preservada nos testemunhos dos cristãos das gerações que nos precederam, onde encontramos provas históricas de nossas raízes.

Por outro lado, dizer que algo está na Escritura, algo está na Tradição, algo está no Magistério, , somente revela uma má compreensão desses elementos. Um único é o depósito da fé, como bem acentua a Dei Verbum, é a Revelação de Nosso Senhor Jesus Cristo que se fez homem, e cujo ensinamento, em gestos, palavras, obras, foi transmitido pelos apóstolos (palavra que significa enviado) e cuja continuidade é a Igreja, que já São Paulo ensinava, é o Corpo de Cristo, coluna e sustentação da Verdade.

Assim, sendo a Tradição a continuidade desse ensino do Cristo, na vida e doutrina da Igreja, sendo a Escritura a parcial condensação dessa Tradição em escritos da era apostólica, e sendo Magistério o exercício da Autoridade conferida por Nosso Senhor à Igreja, o depósito da fé é único, abrangendo e englobando esses três aspectos de modo indissociável, e pode-se dizer que é a Igreja mesma. Em outros termos, os três formam um só corpo, que é o depósito da fé, e que a seu turno é a continuidade do ensinamento do Cristo, cuja obra é continuada na Igreja, que é o seu corpo. Portanto, os três, Tradição, Escritura e Magistério, são o prolongamento do ensinamento e ação do Cristo mediante a Igreja, portanto, são a Igreja.

Entretanto, essa identificação do depósito da fé é algo essencialmente inadmissível pelos protestantes. Primeiro, porque o Protestantismo nasceu da rejeição da Igreja Católica. Segundo, porque é da natureza do Protestantismo que tudo seja questionável, a partir da rejeição da Autoridade e da Tradição em favor do Livre Exame da Bíblia, tornando-se cada qual o juiz da verdade segundo a própria interpretação da Escritura. Mas é um erro pretender separar a Escritura da Igreja, da Tradição e do Magistério. Escritura sem Tradição e Magistério é apenas um livro, mais um livro, com o qual se pode fazer de tudo, que admite qualquer interpretação, que está sujeito ao uso e ao abuso. Mas no contexto da Igreja, ela entra na grande corrente da Tradição, numa relação recíproca de compreensão e estabilização, e quando avultam disputas, a Igreja está presente para re-estabilizar esse grande caudal apaziguando o mar e os ventos com a Autoridade que Cristo lhe confiou exercendo o Magistério.

Portanto, a nossa fé vem dos apóstolos, pelo meio que os apóstolos deixaram, a Igreja pela qual Cristo deu seu sangue, como afirma São Paulo. Nada menos, nada mais. E embora possamos diferenciar conceitualmente os elementos da Tradição, da Escritura e do Magistério, eles de tal modo compõem o depósito da fé da Igreja que são em verdade um só e único, e se identificam com a Igreja mesma, Corpo de Cristo e prolongamento visível de sua ação no mundo, com seus ensinamentos, seus ritos, suas ações. E como tudo que é unido, quando separados, se enfraquecem e se desintegram.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Definição a respeito das sagradas imagens - II Concílio de NICÉIA (7º ecumênico)

II Concílio de NICÉIA (7º ecumênico) 24 set. – 23 out. 787

600-603: Sessão 7ª, 13 out. 787
A definição concordada na sessão 7ª, foi publicamente proclamada com solenidade na sessão 8ª, de 23 out.
Ed.: MaC 13, 377C-380B / COeD3 13536-13734 / HaC 4, 456A-D.

Definição a respeito das sagradas imagens

… Como que prosseguindo sobre a via régia, seguindo a doutrina divinamente inspirada pelos nossos santos Padres e a tradição da Igreja católica – pois reconhecemos que ela é do Espírito Santo que a habita –, nós definimos com todo o rigor e cuidado que, à semelhança da figura da cruz preciosa e vivificante, assim as venerandas e santas imagens, quer pintadas, quer em mosaico ou em qualquer outro material adequado, devem ser expostas nas santas igrejas de Deus, sobre os sagrados utensílios e paramentos, sobre as paredes e painéis, nas casas e nas ruas; tanto a imagem do Senhor Deus e Salvador nosso Jesus Cristo como a da Imaculada nossa Senhora, a santa Deípara, dos venerandos anjos e de todos os santos e justos.
De fato, quanto mais <os santos> são contemplados na imagem que os reproduz, tanto mais os que contemplam as <imagens> são levados à recordação e ao desejo dos modelos originais e a tributar a elas, beijando-as, respeito e veneração; não, é claro, a verdadeira adoração própria de nossa fé, reservada só à natureza divina, mas como se faz para a representação da cruz preciosa e vivificante, para os santos evangelhos e os outros objetos sagrados, honrando-os com a oferta de incenso e de luzes segundo o piedoso uso dos antigos. Pois “a honra prestada à imagem passa para o modelo original”1, e quem venera a imagem venera a pessoa de quem nela é reproduzido.
Assim se reforça o ensinamento dos nossos santos Padres, ou seja, a tradição da Igreja universal, que de um extremo ao outro da terra acolheu o Evangelho. Assim nos tornamos seguidores de Paulo que falou em Cristo [cf. 2Cor 2,17], do divino colégio apostólico e dos santos Padres, mantendo as tradições que temos recebido [cf. 2Ts 2,15]. Assim podemos cantar para a Igreja os hinos triunfais à maneira do profeta: “Alegra-te filha de Sião, exulta filha de Jerusalém; goza e regozija-te com todo o coração; o Senhor tirou de teu meio as iniqüidades dos teus adversários, foste libertada das mãos dos teus inimigos. Deus é rei no teu meio, não mais verás o mal” [Sf 3,14s Septg.], e paz contigo para sempre!
Aqueles, pois, que ousam pensar ou ensinar diversamente, ou, seguindo os ímpios hereges, violar as tradições da Igreja, ou inventar novidades, ou repelir alguma coisa do que foi confiado à Igreja, como o <livro do> Evangelho, a imagem da cruz, uma imagem pintada ou uma santa relíquia de um mártir; ou <que ousam> transtornar com astúcia e engodo algo das legítimas tradições da Igreja universal ou usar para fins profanos os vasos sagrados ou os mosteiros santificados, nós decretamos que, se bispos ou clérigos, sejam depostos, se monges ou leigos, sejam excluídos da comunhão.

As sagradas imagens, a humanidade de Cristo, a tradição eclesiástica

Nós acolhemos as venerandas imagens; nós submetemos ao anátema aqueles que não admitem isto …
Se alguém não admite que Cristo, nosso Deus, é circunscrito segundo a humanidade, seja anátema. …
Se alguém não admite que as narrativas evangélicas sejam explicadas com imagens, seja anátema …
Se alguém não honra estas <imagens> que são para o nome do Senhor e dos seus santos, seja anátema.
Se alguém rejeita toda a tradição eclesiástica, escrita ou não escrita, seja anátema. …

Fonte: Denzinger, Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral da Igreja católica

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

A CONTRADIÇÃO INSANÁVEL DO PROTESTANTISMO, SEGUNDO OS PROTESTANTES



Todo o Protestantismo se estrutura a partir do princípio Sola Scriptura, somente a Bíblia. Como disse o famoso Charles Haddon Spurgeon “A Bíblia, toda a Bíblia, e nada mais que a Bíblia é a religião dos protestantes” (“The Eternal Name”).

De fato, temos que “Sola Scriptura já foi chamado o princípio formal da Reforma, no sentido de que se posiciona no início de tudo e assim direciona e forma tudo que os cristãos afirmam como cristãos” (James Montgomery Boice, “Reforma hoje”, 1999, p. 7; evidentemente se referindo aos protestantes pelo termo “cristãos”).

Também já se disse que “Sola scriptura é um dos princípios fundamentais da Reforma Protestante. Alguém poderia até dizer que outras grandes doutrinas da Reforma (tais como sola gratia e sola fide) são logicamente dependentes do sola scriptura” (Brian M. Schwertley, “Sola Scriptura e o princípio regulador do culto”, 2001, p. 11).

E até já se admitiu que “se Roma pode provar sua posição contra sola Scriptura, ela aniquila todos os argumentos da Reforma com um golpe fatal” (John MacArthur Jr., “A suficiência da palavra escrita”, em “Sola Scriptura numa época sem fundamentos”, 2000, pp. 135-136).

Um dos princípios fundamentais do Sola Scriptura é o livre exame da Bíblia, pois, se a plena liberdade no exame da Bíblia for negada, impondo-se algum padrão interpretativo ao crente, então não há mais Sola Scriptura, mas a Escritura e uma certa doutrina.

Assim, Lutero já defendia uma “compreensão totalmente livre das Escrituras” (“Comentário de Lutero sobre a 13ª tese a respeito do poder do Papa”, “Obras selecionadas”, v. 1, 1987, p. 315).

Na mesma linha, o presbiteriano A. A. Hodge, ao interpretar a Confissão de Fé de Westminster, reafirma o Livre Exame dizendo que “A doutrina protestante consiste em: (…) as Escrituras são a única voz autoritativa na Igreja; a qual deve ser interpretada e aplicada por cada pessoa a si mesma” (“Confissão de fé de Westminster comentada por A. A. Hodge”, 1999, p. 72).

E mais recentemente, mostrando a permanência e generalidade dessa visão, a Aliança de Evangélicos Confessionais, que reúne enorme gama de denominações protestantes espalhadas pelo mundo, reafirmando o Sola Scriptura na Declaração de Cambridge de 1996, manifestou expressamente o Livre Exame da Bíblia ao declarar: “Negamos que qualquer credo, concílio ou indivíduo possa constranger a consciência de um crente” (James M. Boice e outros, “Reforma hoje”, 1999, p. 13).

Isso posto, convém examinar uma interessante definição do Sola Scriptura que é dada pelo portal “The Interactive Bible” (http://www.bible.ca/) que alega ser uma igreja local independente baseada na Bíblia com várias igrejas irmãs pelo mundo.

No texto “Definindo o Sola Scriptura corretamente”, afirma que “ele significa exatamente o que diz, a bíblia sozinha!” (“Bible alone” no original em inglês, expressão com a qual normalmente se traduz Sola Scriptura do latim para tal língua).

Prossegue afirmando que “Sola Scriptura significa”:
1. A Bíblia sozinha sem credos (ie Credo Apostólico, Credo Niceno);
2. A Bíblia sozinha sem concílios (ie Concílios Ecumênicos.);
3. A Bíblia sozinha sem cânones eclesiásticos (ie Cânones de Dort);
4. A Bíblia sozinha sem declarações de fé (muitas igrejas têm uma);
5. A Bíblia sozinha sem tradição oral (a menos que encontrada na Bíblia);
6. A Bíblia sozinha sem tradição eclesiástica (a menos que encontrada na Bíblia);
7. A Bíblia sozinha sem um “intérprete eclesiástico” (Católicos, Ortodoxos, Testemunhas de Jeová, todos dizem que somente a Igreja pode corretamente interpretar a Bíblia, não o indivíduo);
8. A Bíblia sozinha sem iluminação individual do Espírito Santo (Evangélicos, Batistas, Carismáticos e Calvinistas acreditam que eles são pessoalmente guiados pelo Espírito Santo para corretamente interpretar a Bíblia);
9. A Bíblia sozinha sem profecias e inspiração modernas (Pentecostais, Carismáticos e muitos dos cultos do Século XIX: Mórmons, Adventistas, todos afirmam ter profetas vivos.).”
(Introduction and Overview to Sola Scriptura”, endereço eletrônico http://www.bible.ca/sola-scriptura-start.htm, tradução nossa do texto em inglês).

Repare que é feita uma contundente crítica a praticamente todas as denominações protestantes, que em primeiro afirmam o Sola Scriptura, mas logo depois à Escritura somam algum tipo de doutrina ou autoridade oficial.

O texto também faz uma distinção entre “Igrejas Anti-Sola Scriptura”, que incluem a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas Orientais, de fato esse é o caso, e “Igrejas Pseudo-Sola Scriptura”, ou seja, que falsamente alegam adotar o Sola Scriptura, e que incluem Carismáticos, Pentecostais, Evangélicos, Batistas, “todas as igrejas da Reforma”, e Calvinistas, é dizer, praticamente todo o Protestantismo.

Assim, o que esse site/organização, fundamentalista sem dúvida, mostra é a absoluta incoerência de todo o Protestantismo ao proclamar “Sola Scriptura” e depois adotar credos, declarações de fé, algum tipo de autoridade, seja profeta, seja igreja, ou acrescentar supostas profecias.

Nesse sentido, prossegue afirmando: “Esta é a verdade”: (…) Apelar para credos, como regra de fé traz uma contradição irreconciliável tanto com a Bíblia quanto entre os diferentes credos entre si. A iluminação interior do Espírito Santo para compreender a Escritura é comprovadamente uma falsa doutrina porque o Espírito não vai revelar doutrinas diferentes para pessoas diferentes. Aqueles que acreditam na iluminação interior do Espírito Santo são, portanto, autoenganados pensando que tudo o que eles acreditam é verdade porque o Espírito Santo levou a essa crença”.

Sem dúvida alguma, trata-se de levar o Sola Scriptura às suas últimas consequências, entretanto, consequências necessárias desse princípio. Com efeito, essa visão não representa uma ruptura com o Protestantismo de origem no século XVI, mas seu genuíno desenvolvimento, levando os seus princípios à mais pura expressão.

Ora, se a Bíblia é a única regra de fé e de moral, se somente por ela, livremente examinada, tudo se deve avaliar, e se com esse princípio se rejeita tanto a Tradição como o Magistério da Igreja Católica Apostólica Romana, que vinham se desenvolvendo desde o tempo dos Apóstolos, também se deve rejeitar todos os outros credos, declarações de fé, doutrinas (de “reformadores”), catecismos, tradições, elaborados e desenvolvidos a partir do século XVI por seitas e líderes protestantes.

Deveras, não é coerente, a partir do Sola Scriptura (com seu Livre Exame da Bíblia) simplesmente trocar uma tradição e um magistério eclesiástico por outro. Portanto, a rejeição de toda tradição e doutrina é uma consequência natural da primeira rejeição da Tradição e do Magistério da Igreja Católica Apostólica Romana, feita por Lutero no século XVI e seguida por tantos outros.

Mas tal rejeição leva a um outro paradoxo já implícito nas afirmações acima transcritas: se toda a doutrina, princípio, pressuposto, tudo que não é estritamente a palavra da Bíblia, deve ser rejeitado, então o Sola Scriptura também deve ser, por ser doutrina/princípio/pressuposto tanto quanto os demais, já que não está enunciado claramente (na verdade, nem implicitamente) na Bíblia.

De fato, repare que não há um versículo bíblico citado em nenhuma definição do Sola Scriptura transcrita acima, embora todas afirmem seguir a Escritura, somente a Escritura e nada mais que a Escritura.

Conclusão: o Sola Scriptura é autodestrutivo, pois exige a rejeição de si mesmo.

Assim, se o Sola Scriptura é o princípio fundamental do Protestantismo, o princípio formal da Reforma, sem o qual todo o Protestantismo não pode se sustentar, como afirmado pelos próprios teólogos protestantes, então a inevitável conclusão é que o Protestantismo tem um erro fatal de princípio, sendo absolutamente insustentável do ponto de vista lógico.


Parece que somente o ódio à Igreja de Cristo explica que esse movimento tenha surgido e se expandido, embora de modo fragmentário, já há 500 anos. Algo que se compreende olhando para o povo que diz: “soltem Barrabás!”.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

SÃO TOMÁS DE AQUINO E A ADORAÇÃO DA IMAGEM DE CRISTO



Na busca incessante de acusações contra a Igreja Católica Apostólica Romana, e buscando sustentar sua tese já desgastada de que a Igreja ensina os católicos a adorarem imagens, tem circulado um panfleto virtual (“meme”) com uma imagem de São Tomás de Aquino e um trecho da Suma Teológica que estaria dizendo ser devido adorar a imagem de Cristo.

Os trechos em questão foram extraídos da Parte Terceira, Questão 25, Art. 3, na tradução de Alexandre Correia, disponibilizada pela Editora Permanência, sendo os seguintes:

Art. 3 — Se a imagem de Cristo deve ser adorada com adoração de latria.
O terceiro discute-se assim. — Parece que à imagem de Cristo não deve ser adorada com adoração de latria.”
Mas, em contrário, Damasceno cita Basílio, que diz: A honra prestada à imagem é prestada ao ser a que ela pertence, isto é, ao modelo. Ora, o modelo mesmo isto é, Cristo, deve ser adorado com adoração de latria. Logo, também a sua imagem.”
4. Demais. — No culto divino não se deve praticar senão o instituído por Deus. Por isso o Apóstolo, ao transmitir a doutrina do sacrifício da Igreja, diz; Eu recebi do Senhor o que também vos ensinei a vós. Ora, a Escritura nada nos diz sobre a adoração das imagens. Logo, a imagem de Cristo não deve ser adorada com adoração de latria.”
RESPOSTA À QUARTA. — Os Apóstolos, por uma inspiração familiar do Espírito Santo, ensinaram certas práticas a serem observadas pelas Igrejas, que não deixaram por escrito, mas na observância da Igreja, através das gerações dos fieis. Por isso o Apóstolo mesmo diz: Estai firmes e conservai as tradições que aprendestes, ou de palavra, isto é, proferida oralmente, ou de carta nossa, isto é, por um escrito transmitido. E entre essas tradições está a da adoração das imagens de Cristo. Por isso São Lucas pintou a imagem de Cristo, que, segundo se conta, está em Roma.”

O problema, como de costume, é o que o panfleto não mostra, e esse é o objetivo desse pequeno artigo, esclarecer o que São Tomás de Aquino realmente ensina mostrando mais da Suma Teológica.

Antes, porém, cabe esclarecer que a Igreja Católica Apostólica Romana possui doutrina oficial, que pode ser consultada no Catecismo aprovado pela Igreja e disponibilizado em diversos idiomas no site do Vaticano. E o Catecismo contém o seguinte no parágrafo 2132: “A honra prestada às santas imagens é uma «veneração respeitosa», e não uma adoração, que só a Deus se deve”. Não resta dúvida, portanto, que não é crido ou ensinado pela Igreja que se deva adorar imagens, e qualquer um que queira realmente saber o teor da doutrina católica tem aí a sua resposta.

Veremos, contudo, que disto não destoa São Tomás de Aquino. De fato, encontramos na Suma Teológica:

Sendo a latria devida só a Deus, não o é à criatura; não o é, no sentido em que a venerássemos em si mesma. Mas, embora as criaturas insensíveis não sejam em si mesmas dignas de veneração, a criatura racional o é. Por isso, não devemos o culto de latria a nenhuma criatura racional como tal. Sendo, porém, a bem-aventurada Virgem uma criatura racional, em si mesma, não lhe devemos a adoração de latria, mas só a veneração de dulia. De maneira mais eminente, contudo, que às outras criaturas, por ser Mãe de Deus. E por isso dizemos que lhe é devida, não qualquer dulia, mas a hiperdulia.” (ST, P. III, Q. 25, Art. 5).

Portanto, o Doutor Angélico ensina claramente que adoração somente é devida a Deus, a veneração a pessoas, sendo que nem mesmo à Virgem Maria é devida adoração, e quanto às coisas, como as imagens em si mesmas, nem mesmo veneração é devida.

Assim, não se pode dizer que São Tomás de Aquino defenda a adoração de imagens, pois claramente rejeita mesmo a veneração senão a pessoas. De fato, ele explica que “Não prestamos o culto de religião às imagens consideradas em si mesmas, como coisas: mas, enquanto conducentes ao Deus incarnado. Ora, o culto pela imagem, como tal, não finda nela, mas, tende para o ser que ela representa. Logo, prestar o culto de religião às imagens de Cristo não diversifica a ideia de latria nem a virtude de religião” (ST, P. II, S. II, Q. 81, Art. 3).

Disto já se tem o suficiente para ver que a acusação de que este grande Santo e Filósofo ensine a adorar imagens é infundada. Resta mostrar o que São Tomás de Aquino efetivamente ensina no texto do qual foram extraídos os trechos colacionados no panfleto.

Seguindo o método escolástico, São Tomás de Aquino propõe uma questão: “Se a imagem de Cristo deve ser adorada com adoração de latria”, e inicia a resposta com a antítese: “Parece que à imagem de Cristo não deve ser adorada com adoração de latria”, e prossegue apresentando os argumentos para tal antítese: primeiro que a Escritura diz para não fazer imagens, segundo que a adoração de imagens é uma prática pagã, terceiro que a adoração a Cristo decorre de sua divindade pois não se deve adorar o homem por ser imagem de Deus, e quarto que a Escritura não ensina a adoração de qualquer imagem. Até parecem as objeções dos protestantes de hoje.

Depois traz manifestação no sentido contrário, que representa a Tradição da Igreja: “Mas, em contrário, Damasceno cita Basílio, que diz: A honra prestada à imagem é prestada ao ser a que ela pertence, isto é, ao modelo. Ora, o modelo mesmo isto é, Cristo, deve ser adorado com adoração de latria. Logo, também a sua imagem”.

Esse é um dos trechos transcritos no panfleto. Na verdade é uma citação de São João Damasceno, ao defender o uso das imagens contra os iconoclastas no século VII. E embora mencione a adoração da imagem (de Cristo), havia explicado que esta se dá na verdade Àquele que a inspira (o modelo), por este ser digno de adoração. Damasceno estaria defendendo não a adoração da imagem propriamente dita, o objeto seja pintura ou escultura, mas a adoração por meio dele do Deus feito homem, o Cristo. É exatamente com esse sentido que São Tomás prossegue defendendo essa afirmação.

De fato, a resposta, com a tese defendida por São Tomás, vem a seguir:

Como diz o Filósofo, a nossa alma se aplica com duplo movimento, a uma imagem, à em si mesma, como uma determinada coisa e enquanto imagem de alguém. E entre esses dois movimentos há a diferença seguinte: o primeiro movimento, pelo qual nos aplicamos a uma imagem, enquanto uma determinada coisa, difere daquele pelo qual nos aplicamos ao ser a que ela pertence; ao passo que o segundo movimento, cujo objeto é a imagem como tal, é idêntico ao que tem por objeto o ser ao qual ela pertence.”

Assim, citando o Filósofo, isto é, Aristóteles, em seu pequeno tratado Da Memória e da Recordação, São Tomás entende que o ser humano pode se dirigir a uma imagem visando a própria imagem, isto é, o objeto em si mesmo; mas que, ao contrário, pode se dirigir à imagem visando não ao objeto, mas sim àquele que a imagem nos traz à mente.

Hoje, podemos pensar na fotografia de uma pessoa querida, uma mãe, um filho. Ninguém pega uma fotografia destas com desdém, e é comum que se as aperte contra o peito, ou que se beije a imagem da pessoa na fotografia, num sinal de amor e saudade. É óbvio que ninguém em sã consciência ama o papel impresso e a tinta. O amor expresso nesse movimento à fotografia na verdade é direcionado à pessoa ali fotografada. É esse um movimento do segundo tipo mencionado por São Tomás de Aquino, e aqui ele se encontra plenamente coerente com seu ensinamento em parte anterior de sua obra: “o culto pela imagem, como tal, não finda nela, mas, tende para o ser que ela representa”.

Prossegue então em sua resposta: “Donde, pois, devemos concluir, que à imagem de Cristo, enquanto uma determinada coisa, por exemplo, madeira esculpida ou pintada, nenhuma reverência é prestada, por que reverência só é devida à natureza racional”. Aqui São Tomás fala daquele movimento do primeiro tipo, dirigido à imagem enquanto objeto em si (madeira esculpida ou pintada) dizendo com clareza e precisão que nenhuma reverência lhe deve ser prestada.

Prossegue ele: “E daí resulta que lhe prestamos reverência só enquanto imagem”. Ou seja, se enquanto objeto em si mesmo a imagem nada significa, qualquer gesto de veneração ou adoração que, de modo exterior, aparente e material a ela seja dirigido, somente pode ter por destinatário aquele do qual ela é imagem, representação, ou seja, àquele ao qual ela nos remete. Novamente o Doutor Angélico está apenas repisando aquilo que já disse, como visto acima.

Donde se segue que a mesma reverência é prestada à imagem de Cristo e ao próprio Cristo”. Isto é, se o movimento se dirige a Cristo mesmo, não ficando na mera pintura ou escultura, então esse movimento deve ser o devido ao próprio Cristo. A consequência evidente é esta: se o Cristo é adorado, quem se dirige à imagem dEle, enquanto imagem meramente que aponta para o Cristo mesmo, dirige-se ao próprio Cristo, e, portanto, deve estar realizando um gesto de adoração, não da imagem propriamente mas do Cristo. E nesse sentido conclui São Tomás de Aquino: “Sendo, portanto, Cristo adorado com adoração de latria, consequentemente a sua imagem deve ser adorada também com adoração de latria”.

Resumindo: se a imagem em si mesma nada significa, ela somente recebe qualquer reverência na medida em que se reverencia aquele que ela nos aponta. Então, nesse movimento, que não fica na imagem, mas a ultrapassa e alcança aquele a quem ela nos remete, venera-se quem é digno de veneração, e adora-se quem é digno de adoração, ou seja, o Cristo. O movimento, assim, embora dirija-se (externa, material e aparentemente) à imagem, dirige-se na realidade ao Cristo, e, por isso, apenas nesse sentido, cabe falar na adoração à imagem de Cristo, que, repisa-se, não é adoração à imagem propriamente enquanto objeto, mas Àquele a quem ela remete e ao qual verdadeiramente se dirige nossa mente, palavras e gestos, pois “o culto pela imagem, como tal, não finda nela, mas, tende para o ser que ela representa”.

Voltando à aplicação a uma fotografia de um ente querido, o beijo na fotografia impressa é um ato de expressão de amor que se dirige, de modo exterior, material e aparente, a um papel impresso com tinta, mas de modo algum termina nele, pois não é o papel impresso que é amado. Portanto, é um ato que expressa amor à pessoa fotografada. Do mesmo modo, a oração, o louvor, as lágrimas, o beijar os pés ou as feridas, da imagem do Cristo, crucificado, glorioso, menino, de modo algum expressa adoração ao gesso, tela, madeira, aço, ou tinta, mas tão somente Àquele Deus que se fez homem e veio morar no meio de nós, dando sua vida pela salvação de muitos.

É isso que “aqueles que não entendem difamam” (Jd 1,10). No temor de cometerem algo contrário ao que agrada a Deus, a mentalidade protestante ressuscitou a velha heresia iconoclasta, que, ao invés de compreender a função da arte sacra para a fé e a piedade, rejeita-a completamente, e vê idolatria em gestos legítimos de amor a Deus, idênticos aos mais naturais gestos de amor pelas pessoas queridas, apenas porque não se encaixam em tal mentalidade.

Prossegue São Tomás de Aquino respondendo às objeções, iniciando pela primeira, da proibição bíblica de se fazer imagens:

O referido preceito não proíbe fazer qualquer escultura ou imagem, mas, fazê-la para adorar, e por isso acrescenta: Não as adorarás nem lhes darás culto. Mas, como se disse, o movimento para a imagem é o mesmo que o para a realidade; por isso, é proibida a adoração da imagem do mesmo modo pelo qual o é a adoração do ser a que ela pertence. E por isso se entende a proibição, do lugar aduzido, de adorar as imagens, que os gentios faziam para venerar os seus deuses, isto é, os demônios. Donde o acrescentar a Escritura: Não terás deuses estrangeiros diante de mim. Pois, do verdadeiro Deus, que é incorpóreo, não se pode fazer nenhuma imagem corpórea; porque, como diz Damasceno, é suma insipiência e impiedade dar figura ao divino. Mas, como no Novo Testamento Deus se fez homem, pode ser adorado na sua imagem corpórea”.

Essa é a explicação completa do preceito bíblico, e é isso que a Igreja ensina há milênios. Não se adora os ídolos dos deuses pagãos, mas o Deus único e verdadeiro, que se fez homem, e portanto assumiu uma forma material e humana, e desde sempre os cristãos utilizam símbolos e representações que a ele remetem, desde a Cruz, na qual Ele nos salvou, o peixe, cuja palavra em grego contém as iniciais do louvor “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”, as pinturas e esculturas, das quais as mais antigas conhecidas remontam ao início do século III (mais antigas que a Bíblia enquanto biblioteca sagrada, isto é, que o cânon bíblico) e, principalmente, ao século IV, quando o fim das perseguições permitiu o florescimento da arte sacra.

Sobre a segunda objeção (não imitar as práticas idólatras dos pagãos), São Tomás explica que : “a adoração das imagens deve ser contada entre as obras infrutuosas, por duas razões. Primeiro, porque certos gentios adoravam essas imagens como se fossem as realidades, crendo habitar nelas a divindade, por causa das respostas que os demônios por meio delas davam, e outros efeitos insólitos semelhantes. Segundo, por causa das realidades que elas manifestavam; pois, faziam essas imagens, de certas criaturas, veneradas nelas pela veneração de latria. Ao passo que nós adoramos por adoração de latria a imagem por causa da realidade que ela representa, como dissemos”.

Ou seja, as práticas pagãs, quer de adorar um objeto em si, quer de adorar por meio dele um falso deus ou demônio, são proscritas. Adorar Cristo, por meio da sua imagem (já que não se adora a imagem em si), é justo e devido.

Respondendo à terceira objeção, de que não se deve adorar o homem por ser imagem de Deus, escreve: “À criatura racional é devida reverência, em si mesma. Por onde, se à criatura racional, que é a imagem de Deus, fosse tributada a adoração de latria, poderia haver ocasião de erro; isto é, poderia o afeto dos adoradores limitar-se ao homem, como um determinado ser, sem levar-se até Deus, de que ele é a imagem. O que não pode dar-se com a imagem esculpida ou pintada na matéria insensível.”

Ou seja, o homem tendo personalidade própria, sendo pessoa, ser racional, não pode ser adorado enquanto imagem de Deus, exatamente porque, sendo pessoa, essa adoração atingiria ao homem mesmo. Mas a imagem, por ser mero objeto, sem racionalidade ou personalidade, é perfeitamente instrumentalizada para a adoração Àquele a quem remete e é de fato digno de toda a adoração e louvor, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Valendo-nos novamente do exemplo da fotografia, enquanto ninguém pensaria que o beijo na foto impressa é um ato de amor ao papel e à tinta, um beijo no filho de uma pessoa que se ama (que não deixa de ser imagem e semelhança de seus pais) poderia aparentar ser um ato de amor ao filho, e não a um de seus genitores. É fácil imaginar situações em que isso poderia causar constrangimentos. Portanto, se a intenção é essa, é melhor beijar a foto, que não tendo personalidade não seria objeto de amor em si mesma.

Enfim chegamos à resposta à quarta objeção, de que a Bíblia não ensina a adorar a imagem do Cristo: “Os Apóstolos, por uma inspiração familiar do Espírito Santo, ensinaram certas práticas a serem observadas pelas Igrejas, que não deixaram por escrito, mas na observância da Igreja, através das gerações dos fiéis. Por isso o Apóstolo mesmo diz: Estai firmes e conservai as tradições que aprendestes, ou de palavra, isto é, proferida oralmente, ou de carta nossa, isto é, por um escrito transmitido. E entre essas tradições está a da adoração das imagens de Cristo. Por isso São Lucas pintou a imagem de Cristo, que, segundo se conta, está em Roma.”

Esse é outro trecho transcrito no panfleto acusatório protestante. A questão é que, após reunir outros trechos da magistral obra de São Tomás de Aquino, a Suma Teológica, e seguir os passos de seu raciocínio na questão proposta, sabe-se perfeitamente o que o grande Doutor Angélico quer dizer com adoração da imagem de Cristo. Com efeito, sabe-se que ele se mantém coerente com o princípio de que “o culto pela imagem, como tal, não finda nela, mas, tende para o ser que ela representa”. Assim, quando fala de adorar uma imagem de Cristo, não pretende dizer que se deva adorar o objeto de gesso ou tinta, mas o Cristo mesmo que é ali representado, é dizer, é antes adorar a Cristo por meio de sua imagem, ou ainda, num movimento que se dirige à imagem mas a ultrapassa para visar e atingir aquele ao qual a imagem nos remete.

Daí a coerência de sua resposta à quarta objeção, esclarecendo que, não estando nosso conhecimento da fé limitado à Bíblia, mas igualmente à Tradição, reputamos perfeitamente lícitas práticas não prescritas, mas coerentes com o ensinamento bíblico.

São Tomás chega a supor que deva haver um ensinamento vindo do tempo dos apóstolos nesse sentido. Isto é possível mas nem é efetivamente necessário. Basta que o uso das imagens não contrarie a Palavra de Deus escrita, como explicou São Tomás na resposta à primeira objeção, e que nos tenha chegado pela Tradição e pelo Magistério da Igreja, consolidado nessa questão no VII Concílio Ecumênico (Niceia II). O fato entretanto é que, mesmo no que chegou até nós (pois objetos antigos não necessariamente sobrevivem por dois mil anos) realmente Cristo é representado de várias formas (peixe, cruz, pinturas), desde os inícios do Cristianismo, e que essas representações remetem a Cristo é a razão de serem feitas, e que Cristo é adorado é da essência do Cristianismo; logo, pode-se dizer que essas representações, desde os tempos primevos, foram meios pelos quais se adorava a Cristo.

São Tomás de Aquino, portanto, não ensina a adorar imagem alguma. Ao contrário, reiteradas vezes afirma que a imagem em si mesma é mero objeto indigno de qualquer consideração. Entretanto, a imagem é meio, é, como dizemos hoje, linguagem, que remete quem a vê, a toca, àquele que é “representado”. Se este é digno de veneração, a imagem é meio de a ele venerarmos. Se é digno de adoração, é meio de adorarmos. Não se venera nem adora a coisa, mas aquele ao qual a coisa ajuda a enviar nosso pensamento. Assim, o gesto vai, externamente, à coisa, mas o sentido vai à pessoa, como àquele que amamos e de quem temos uma fotografia. Se fala o grande Teólogo em adorar uma imagem, deixa ele claro que não se trata propriamente de adorar aquela imagem (objeto), mas ao Cristo, Deus que se fez homem, ali representado, num movimento que vai para a imagem, mas visa e chega Àquele ao qual ela remete nosso pensamento. Há antes nisso, podemos dizer numa linguagem moderna, uma simplificação, pois ao dizer “adorar a imagem de Cristo” claro está o sentido de “adorar Cristo por meio de sua imagem”.


Não deve ser esquecido, entretanto, que a doutrina oficial da Igreja Católica está acessível e à disposição de todos. O texto do Catecismo é direto, em linguagem atual, destinado, como se diz, tanto aos doutos quanto aos indoutos, e visa apresentar de modo claro aquilo que é crido e ensinado pela Igreja. A honestidade na busca pela doutrina católica, portanto, deve levar antes ao Catecismo, e somente como recurso de fundamentação, compreensão histórica e crítica, a obras de séculos de idade e destinadas, já quando elaboradas, a iniciados em Filosofia e Teologia. Pinçar obras como tais, e espalhar trechos que aparentam contrariedade ao que é efetivamente ensinado pela Igreja como se fosse a fé e prática católica é algo claramente desonesto, e visa antes à difamação que à verdade. Felizmente, a verdade brilha nas trevas.